Comer o Coração é o título da obra que representou Portugal na 26ª Bienal de São Paulo. É uma obra única e inédita produzida especialmente para essa ocasião.
A obra é um trabalho de concepção e criação conjunta entre o escultor Rui Chafes e a coreógrafa e bailarina Vera Mantero, que agora é apresentada no CCB.

Este trabalho surpreendente é um farol sobre os modos de fazer e entender a criação. Rui Chafes e Vera Mantero encontraram-se e chegaram a este resultado. Nenhum deles deixou de ser quem é: um fundamental e nuclear artista. É possível que tenham negociado. A vida é negociação. E a arte também é vida. Mas esta escultura-corpo é mais do que uma escultura e mais do que um corpo. É uma entidade intersticial. Um terceiro elemento. Um híbrido. A mostrar-nos que é possível sairmos de nós e aproximarmo-nos do outro sem que isso se traduza em perda ou subtracção.
Paulo Cunha e Silva, Director do Instituto das Artes
Porque Robert Edler von Musil disse que “é preciso comer o coração da mãe para entender a linguagem dos pássaros“ e esta era uma idéia com que estávamos a trabalhar. Mas como o título era muito longo, decidimos ficar só com “comer o coração” e na evolução do trabalho também chegamos a um ponto menos sentimental. Era uma idéia mesmo de comer o coração, uma forma de acabar com o sentimentalismo mas também de comer o coração da peça – e é o que a Vera faz, comendo a si própria e o interior da peça.
Rui Chafes
Comer o coração é um título do Rui. Ele escolheu bastante, eu não disse nada, mas não é um título que me diz muito, na verdade. Porque o que eu sinto, o que faço, é o oposto de comer o coração… eu vomito o coração. Para mim comer o coração é engolir os sentimentos, é ficar bloqueado. Sinto que dou uma resposta em oposição ao título.
Vera Mantero
O título é uma metáfora para a violência da vontade de arrancar ao desenho das formas ou à presença viva de um corpo, a inatingível completude de uma presença plena.
Através da construção imaginada por Rui Chafes, o corpo de Vera Mantero liberta-se do chão e animado pelos desenhos que o redesenham, prossegue a procura de um lugar extraordinário, para além de todas as conveniências. Escultura em ferro e corpo vivo. Coreografia sem chão, para um ser humano e ferro com o mundo à volta.
Alexandre Melo, comissário

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