até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza

é o título da performance criada por Vera Mantero, Antonija Livingstone, Brynjar Bandlien, Loup Abramovici, Marcela Levi, Pascal Quéneau.

A performance acontece com os intervenientes estão sentados que vão proferindo quase em uníssono um discurso às vezes organizado outras em catadupa.

vera mantero

: acções que servem para entender, para reparar, para nomear : a língua virada do avesso : vibração (maravilhar-se) : aparente esquecimento de que Deus, na verdade, nunca existiu : potência impotente : habitar um corpo aberto : (faz-nos sonhar) : intimidade –> liberdade –> energia : não à disjunção : Nietzsche amava em Goethe a totalidade : dificuldades de toda a espécie devem ser bem acolhidas : razão + sensualidade + sentimento + vontade : minúcia e milagre : desregulamento antropológico : encarnar : os laços : potente impotência :
vera mantero

Passear. Quando passeamos, numa floresta por exemplo, tudo muda constantemente. Ao mesmo tempo tudo fica igual, as árvores ficam, o que muda verdadeiramente será talvez a nossa percepção (ritmo, som, toque, olhar).
Passeamo-nos num espaço mental que decorre no tempo do acto de “performar”. As ideias oferecidas são desconexas, como se vagueássemos dentro de um cérebro. Os mecanismos vão desde a associação de ideias, de sons, quedas num espaço de memórias, ressaltos num espaço de constatações. Travessia do espaço dos desejos pessoais, dos desejos partilhados. Viajar nesse espaço como se se tratasse de uma viagem galáctica… perdidos no vazio mas retirando um prazer real deste espaço no qual flutuamos e onde não esperamos nada, onde não há expectativas.
Trata-se de um convite a fazer connosco uma viagem. As inquietudes que temos dirigem-se essencialmente ao espectador. Estás pronto a seguir-nos? A seguir-nos no nosso presente, sem esperar uma “espectacularidade”. Somos sem dúvida pessoas desajeitadas e que tropeçam. O único elemento do espectáculo é o uníssono… mas o nosso coro não está afinado. A viagem não avança verdadeiramente, tal como na floresta, tudo muda todo o tempo e na verdade nada muda visivelmente.
Sem vontade de ensinar seja o que for. Não se trata de um discurso. As coisas enunciadas não são em si próprias importantes. O que sustém o tempo são os silêncios, os entremeios, os buracos. Nós não estamos num mundo absurdo.
Estamos no não-espaço, no não-tempo do presente. Como num cérebro, no pensamento qualquer coisa surge a qualquer momento. It’s beyond our control. Os corpos, os nossos corpos, reflectem os seus corpos (do espectador). Mas é por vezes um espelho que deforma, onde o que é dito pode ser o contrário do que queremos dizer. Os papéis estão invertidos. As frases têm duplo sentido. Nós não queremos uma depressão. O nosso despojamento é feliz. O impacto do nosso ambiente cultural naturalmente judaico-cristão impede-nos de nos “despirmos” completamente. Estamos num jogo musical. A nossa música é feita a partir das nossas musicalidades/músicas. O “divino” apaziguador surge nos nossos cânticos de meditação. O animal ouve mal, compreende mal. Ele é feito de felizes confusões.
No início era o verbo, a destruição de Deus começa agora pela destruição do verbo.
Impressões ao longo do processo.
Loup Abramovici

Após a performance na Culturgest, os intervenientes estiveram disponíveis para responder a algumas perguntas.

O que mais chocou foi o facto de estarem sentados, pois a expectativa era de que dançassem.
Brynjar Bandlien explicou que inicialmente não estavam sentados, mas que a evolução do trabalho de três meses acabou com eles sentados.
Esta ideia de evolução no sentido da simplicidade é algo incompreendido pela nossa sociedade, as pessoas têm ideias predefinidas da evolução “natural” das coisas que não as limitam.

Folha de Sala (pdf)

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